Florianópolis, a terra dos casos e ocasos raros

Na quarta-feira, 23 de março outonal, Florianópolis aniversaria. Quantos anos? Não se pergunta a idade de uma mulher... Florianópolis é mulher vaidosa, cheia de charme, a se alongar pela Ilha de Santa Catarina e abraçar o continente aí em frente em cenários onde se entrecruzam realidades e os sonhos rendados.


A data da fundação de Florianópolis suscitou tanta controvérsia que, por muitas décadas, comemorava-se a autonomia municipal. A antiga Nossa Senhora de Desterro, a nossa Florianópolis, celebra 347 anos de fundação. Portal de entrada dos 6.000 povoadores açorianos na grande utopia da vida. A moldura ansiada e nunca recebida de “um quarto de légua em quadra” foi à medida da dignidade conquistada e o começo da história escrita a partir da Vila de Desterro.

Seu marco inicial é o ano de 1673, quando Francisco Dias Velho lançou os fundamentos da póvoa na Ilha de Santa Catarina e onde, em 1678, erigiu uma capela em louvor a N.S.do Desterro. Há cerca de três anos, finalmente, a cidade acerta o passo com a sua verdade histórica, apagando um hiato de 53 anos. Já não era sem tempo. Por outro lado, celebramos o aniversário de elevação à Vila e, como tal, se lhe ergueu o pelourinho e se estabeleceu o poder municipal – o Senado da Câmara. Assim sendo, continua valendo o
aniversário de 290 anos de predicamento de Vila, do ato instituído a 23 de março de 1726. Não resta dúvida, são fatos históricos legítimos e reconhecidos. Portanto, parabéns Florianópolis!


Meu olhar vagueia enamorado por teu território de pura magia, enquanto o sol, de etérea luminosidade, se deita por trás dos morros da terra firme, deixando-te resplandecente de muitos tons de púrpura, fúcsia, rosa, numa mistura de intensidade cromática e saturação sem igual. Razão de sobra tinha o mestre Amaro Seixas Neto ao te proclamar terra dos casos e ocasos raros.


Cidade-Ilha-Mulher! Caminho por tuas ruas desvendando tua intimidade, indo ao encontro da nossa história cultural com medo doido de vê-la desaparecer no cirandar das gerações.

Alguns fatos históricos e culturais perdidos no limbo do tempo dariam um ótimo enredo para um romance ou até para uma Escola de Samba no carnaval. É o caso da chegada de centenas de embarcações americanas, em meados do século XIX, à pacata Vila de Nossa Senhora do Desterro. Iam ao encontro da fortuna na Califórnia – a célere Corrida D’Ouro. Ou, bem mais recente, a inusitada declaração de amor à cidade na expressão musical e apaixonada do “Tango Florianópolis” composto em 1945 pelo músico, violinista e compositor italiano Pierino Codevilla, natural de Voghera.

São histórias ou estórias esquecida pela memória coletiva ou não revelada pelos nossos historiadores que neste desabrochar outonal e neste março do aniversário de Florianópolis, vale a pena tirar do baú e reviver.

Quantos de nós sabem que, de 1848 a 1856, a “Corrida do Ouro” para a Califórnia passou por aqui. Atravessar os Estados Unidos da América, da Costa Leste ao Oeste, era impensável e não havia ainda o canal do Panamá. A solução era descer o Atlântico Sul,  atracar na paradisíaca Ilha de Santa Catarina e alcançar o Pacífico contornando o Cabo Horn. Nesta louca aventura rumo ao El Dorado passaram pela Ilha cerca de 700 navios por ano. Um espanto! Navios, carregados de tripulantes tomados pela febre de ouro que, após meses confinados em navios acanhados, espalhavam-se por Desterro, sedentos de tudo, numa verdadeira invasão à Ilha, atraídos por sua beleza natural e ávidos por diversão em terra firme.

 
As viagens pelo Cabo Horn foram fartamente documentadas e ilustradas em diários de bordo, noticiadas nos jornais da época e publicadas em livros. Alguns pintam aquarelas da paisagem e cinzelam filigranas no descrever a vida em Desterro. Outros, falam de marinheiros deixados para trás por doença ou porque se apaixonaram por mulheres da Ilha, largaram de seus sonhos na rica Califórnia e se deixaram ficar por cá, enredados na teia da paixão e afortunados por rica prole, tal qual ocorreu com o jovem Thom McElereth. As mulheres da Ilha são citadas em inúmeras crônicas dos navegantes por sua beleza e habilidades manuais.

Fico a pensar que não era nada fácil a convivência dos ilhéus com a turba de americanos excitados à porta de casa, por mais hospitaleiros que fossem ou por mais lucros que podiam usufruir com esta ruidosa presença. Contudo, é inegável que “os Ianques”, de algum modo, influenciaram a sociedade catarinense no exercício profissional e como homens de grande cultura como o último agente consular, Robert Grant (1887-1896) que, foi professor de grandes méritos, maestro e administrador do Theatro Santa Izabel, hoje, Teatro Álvaro de Carvalho.

Outro caso curioso e maravilhoso emerge da crônica cultural de Florianópolis, datado de 1945. Trata-se da existência de um tango composto em homenagem à Florianópolis por um dos mais renomados músicos italianos e compositor de grande sucesso, Pierino Codevilla. A composição foi gravada no Brasil, no final da década de quarenta, por Victor Silvester’s and his Ballroon Orchestra (EMI Odeon, 9453).


Como todas as histórias tem o seu começo. Era uma vez, numa iluminada tarde de outono, há setenta e cinco anos, o barco em que Codevilla viajava com destino à Montevidéu sofreu uma avaria mecânica e aportou junto a Ilha de Santa Catarina. Obra do acaso ou das bruxas, o fato é que o músico italiano capitulou profundamente seduzido e enamorado pela beleza encantada e paradisíaca da nossa Ilha.


O tango “Florianópolis” é um hino de amor incondicional à Ilha. Um presente à cidade pela calorosa hospitalidade, um agradecimento ao amigo-anfitrião Ademar Gonzaga. Meio século depois, Augusto, filho do empresário Ademar Gonzaga, com ajuda do jornalista argentino Antonio Rodriguez Villar, convida o poeta argentino Horácio Ferrer, membro da Academia Nacional de Tango e famoso pelas canções que escreveu com Astor Piazzolla, para criar uma letra para o tango “Florianópolis”. O poeta conheceu Florianópolis, e, como não poderia deixar de ser, também, se apaixonou pela ilha e por Florianópolis. Inspirou-se. Em 1999, nascia a letra de Florianópolis, niña de oro y luz para o belo tango de Pierino Codevilla.

Florianópolis faz aniversário e brinda-nos com a boniteza telúrica no regaço do mar e no jeito de pertença do teu povo que carrega, na maneira de ser e de viver, a identidade cultural, onde se assenta todo o imaginário ilhéu, a criação cultural, celebrativa, solar, única.


Quero também elevar um brinde à Florianópolis, a cidade que se esparrama pela Ilha de Santa Catarina e pelo Estreito aí em frente. Linda e mulher,tal qual cantou a poeta Maura de Senna Pereira: “Meu corpo é o teu imenso corpo de ilha/e minha alma invade as tuas entranhas participando da tua febre criadora” .

Brindo à Florianópolis fazendo uma louvação com os belos versos de Horácio Ferrer
no tango Florianópolis, niña de oro y luz :

“Isla de poesia, niña de oro y luz
Isla que algún dios del sur inspiró
com miel de sol.
Tu ser es de palmar y pez
tu fe de la cruz del anochecer
Orgía de estrellitas em mi alma
flor de noche, flor de dia...
Florianópolis, mi amor. [...]”

Lélia Pereira Nunes, escritora da ACL

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